Festival de Ópera do Theatro da Paz

"Bug Jargal", a ópera esquecida de Gama Malcher reestréia  no Festival

"Bug Jargal", a primeira ópera brasileira do período republicano e que ficou esquecida por mais de anos - a última apresentação aconteceu em 1891, no Rio de Janeiro -, dentro da programação do Festival de Ópera do Theatro da Paz 2003. A obra foi apresentada numa versão em concerto, no mesmo histórico palco onde ela ganhou os aplausos do público pela primeira vez, em 17 de setembro de 1890.

O elenco de Bug Jargal foi escolhido com todo cuidado pela  produção do festival, de forma a adequar perfeitamente o elenco às vozes exigidas pelo autor. Fazem parte do elenco o tenor Eduardo Itaborahy, o barítono coreano Daniel Lee, o baixo norte-americano Stephen Bronk, a soprano paraense Dione Colares, a mezzo-soprano Luciana Bueno e o baixo José Galissa. O acompanhamento de piano é realizado por Ana Maria Andrade e há participação especial do coral Marina Monarcha. A apresentação conta ainda com a narração do ator Cássio Scapin, o Nino do Castelo Rá-Tim-Bum.

"Para compor o elenco de Bug Jargal, nós pensamos quem no Brasil  tem as condições vocais para a realização deste trabalho tão especial. Nós procuramos os melhores no país com padrão vocal que a obra exigia, e formamos um elenco excepcional", explicou a diretora de produção do Festival de Ópera, Rosana Caramaschi.

A ópera "Bug Jargal" nunca foi apresentada em todo o século 20. Foi resgatada pelo regente e pesquisador manauara Márcio Páscoa, que se dedica há dez anos às óperas compostas durante o Ciclo da Borracha, tema de seu doutorado em Coimbra.

Bug Jargal é apenas um anexo da tese do pesquisador, mas a importância de seu resgate para a comunidade artística é inestimável. Ele digitalizou o manuscrito de "Bug Jargal", que estava parcialmente deteriorado no Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro. Márcio o entregará para a Secretaria Executiva de Cultura (Secult) e para a Secretaria de Promoção Social, que patrocinaram a digitalização do manuscrito e que pretendem colocá-lo a disposição da comunidade artística.

Para os solistas envolvidos na remontagem da ópera, o trabalho de Márcio é muito importante para a música. "Foi um trabalho de restauração que valoriza a construção da história musical do País. A ópera enfoca temas da realidade da época e isso é muito interessante e rico para nós", comenta o tenor Eduardo Itaborahy, que representará o papel principal.

Ele diz sentir-se honrado em  representar Bug Jargal e ter contato com uma obra há mais de cem anos esquecida. "Quando peguei a partitura da obra pela primeira vez, fiquei muito impressionado com sua riqueza musical. Fiquei surpreso em ver  a visão do autor do contexto histórico da época. O autor escreve com clareza e perfeição para as vozes, ele tinha um profundo conhecimento de linha de canto, as personalidades dos personagens podem claramente ser percebidas na forma como cantam. Poucos  autores conseguem fazer isso tão bem", ressalta o tenor.

Além da honra em interpretar um papel sem referências anteriores, o tenor ressalta a responsabilidade de fazê-lo: "Ela é muito grande, porque hoje o público tem maiores informações, as pessoas do meio musical sabem quem foi Gama Malcher e estão prontas para avaliar meu desempenho no papel", explica.

Para Luciana Bueno, que canta a personagem Irmã, esse papel é diferente de todos os que ela interpretou anteriormente. "Irma é forte, mas romântica. É sedutora, mas não é má nem destruidora. Ela assume um conflito interior de ódio, mas não chega a ser má. O autor escreve muito bem para vozes e isso surpreendeu a todos os solistas", afirmou.

O mais interessante do fato de uma ópera ser reapresentada depois de mais de cem anos é que os solistas não têm referencial dos papéis que representarão. "É interessantíssimo não ter ouvido tal melodia antes e estar interpretando um papel sem referências, isso em ópera é algo raro. Faz eu me sentir especial", completou a soprano.

O Festival de Ópera do Theatro da Paz 2003 é realizado pelo Governo do Pará, através da Secretaria de Cultura -Secult e produzido pela São Paulo ImagemData.

16 de agosto

Bug Jargal. Ópera de Gama Malcher, com libreto de Vicenzo Valle, apresentada in concert. Direção musical de Márcio Páscoa, participação do Coral Marina Monarcha e da pianista Ana Maria Adade. Com Com Luciano Botelho (Bug Jargal), Daniel Lee (Leopoldo d´Averney), Stephen Bronk (Antônio d´Averney), Dione Collares (Maria) e José Galissa (Biassú).

Local: Belém. No Theatro da Paz (Rua da Paz, s/n, Centro - Tel: 0xx91 212-8147 ou 212-7915)

Ingressos: R$ 10,00 (camarote de 1ª, frisa, platéia e varanda), R$ 6,00 (camarote de 2ª e galeria) e R$ 4,00 (paraíso) ou pelo site www.theatrodapaz.pa.gov.br ou pelo e-mail theatrodapaz@supridados.com.br

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Resumo da Ópera

Uma história de amor, guerra  e fraternidade

"Bug Jargal", a ópera, basea-se no primeiro romance de Victor  Hugo, autor do célebre "Os Miseráveis". Conta a história de amor de um escravo pela filha do dono das terras. Por ser rebelde, Bug seria executado, mas a doce e piedosa Maria intervém e impede a execução do escravo.

Bug, que é amado pela escrava Irmã, apaixona-se perdidamente por Maria. Ela porém, está prometida a Leopoldo - e gosta dele. Leopoldo, que busca saber quem é o homem que entoa cantos de madrugada para Maria. Quando Leopoldo pergunta para Irmã o nome do homem, surge Bug, que só não mata seu concorrente por intervenção de Maria. No entanto, Bug é levado para o cárcere.

Durante a madrugada, quando o escravo Bug relembra seus dias no Congo e canta por seus companheiros escravizados, o Forte Gallifet, na Ilha de São Domingos, atual Haiti - onde se passa a história -, é tomado por escravos rebeldes que lutam pela liberdade. Bug é solto, é aclamado rei, mas sua primeira preocupação é com o bem-estar da amada. Quando Bug declara seu amor, ela diz gostar dele, mas apenas como um irmão - e pede que salve a Leopoldo.

Bug coloca Maria a salvo. Numa atitude nobre, impede a morte de Leopoldo, o verdadeiro amor de Maria. Ele abdica da liderança política do movimento de libertação, entrega o poder a Biassú, e pede que Leopoldo seja solto, pelo menos por uma hora, para que este possa se encontrar com Maria. Em troca, oferece a própria vida, caso Leopoldo não retorne no prazo combinado.

Leopoldo demora mais tempo que o esperado para avistar Maria. Quando Leopoldo se prepara para voltar e se entregar novamente ao movimento revolucionário, percebe que é tarde demais: ouve os tiros da execução de Burg Jargal. Maria e Leopoldo, devedores de suas vidas, jogam-se no chão implorando por piedade divina.

Conheça o elenco de "Bug Jargal"

Eduardo Itaborahy (Bug Jargal)

Mineiro de Belo Horizonte, Eduardo Itaborahy é cantor, compositor,  regente e professor de canto. Vem se apresentando nos maiores teatros brasileiros, destacando-se como Peri em "O Guarani", de Carlos Gomes, em Manaus, Belo Horizonte e no Teatro Nacional de São Carlos de Lisboa, em Portugal; Don José em "Carmem"; Nemorino em "L´Elisir D´Amore", em Manaus, Alfred em "O Morcego" no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ganhou o primeiro lugar no I Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão, em 2001. Cantou Macduff em "Macbeth" na Dorset Opera (Inglaterra), no Festival de Ópera do Theatro da Paz 2002 e no Theatro Municipal de São Paulo; Camilo em "A Viúva Alegre" (Theatro da Paz). Recebeu o Prêmio Carlos Gomes em 2001 e, em 2002 interpretou Pollione em "Norma", de Bellini, na Inglaterra. Em 2003, cantou "Réquiem", de Mozart, na Sala São Paulo com a Orquestra  Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a regência de John Neschling,

 

 

 

 

 

Daniel Lee (Leopoldo d´Averney)

Nascido na Coréia, estudou canto na Universidade Yonsei (Seoul).

Freqüentou a Academia Ducale de Gênova e o Conservatório de Música de Bréscia. Participou de vários concertos e óperas, destacando-se "La Bohème" de Puccini, no Teatro Nacional da Coréia, e "Pagliacci" de Leoncavallo, no Teatro Memorial de Arte. No Brasil, conquistou o 1º lugar no Concurso Internacional de Canto Francisco Mignone, no Rio de Janeiro, e foi o segundo colocado no I Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão. Em 2002, fez o papel-título em "Macbeth", de Verdi, no Theatro da Paz, interpretou Gonzáles na Ópera "Il Guarany" de Carlos Gomes, em Belo Horizonte, e foi solista da "9ª Sinfonia" de Beethoven no Teatro Municipal de Santo André. Atualmente, participa de concertos pelo Coral  Sinfônico Coreano no Brasil e, desde 2003, integra o naipe dos baixos do Coro da Osesp.

Stephen Bronk (Antônio d´Averney)

Nascido no Massachusetts, Estados Unidos, realizou seus estudos vocais no Conservatório Musical Estadual de Colônia, na Alemanha, aperfeiçoando-se com Herbert Mayer em Nova York. Durante vinte anos de carreira cantou mais de sessenta óperas e apresentou-se nos mais renomados teatros, como o Gran Teatre Del Liceu de Barcelona, as óperas de Nancy, Strasbourg e  Lyon (França), The Royal Danish Opera (Dinamarca) e Ópera de Praga (República Tcheca). Como concertista, cantou com orquestras da Alemanha, Noruega, Holanda e Suíça, assim como realizou várias gravações  com as sinfônicas das rádios da Alemanha, Itália e Japão.

No Brasil cantou, em montagens do Palácio das Artes de Belo Horizonte, nas óperas "Don Giovanni", "Carmem" e "Il Guarany". Mora em Belo Horizonte, onde criou e dirige a Companhia de Ópera Bufa na Academia das  Artes Vocais, assim como leciona na Ópera Estúdio do Palácio das Artes.

 

 

 

 

 

Dione Colares (Maria)
 
  Graduou-se pelo Conservatório Carlos Gomes, em Belém. Atuou como solista  no "Glória" de Vivaldi (Belém), "Missa da Coroação" de Mozart (Belém), na "Cantata 196" de J.S. Bach (Estados Unidos), bem como em vários recitais  de canto no Brasil e no exterior. Participou do recital "Inéditos da Música

Paraense do Século 19", apresentado no Festival de Ópera do Theatro da Paz 2002. Laureada em vários concursos no Brasil e nos Estados Unidos, atualmente é intérprete das obras para canto do maestro Altino Pimenta, tendo participado da gravação de seu CD em 2001 pela Secult e divulgado suas abras em recitais nos Estados Unidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

José Galissa (Biassú)

Nasceu em Ouro Preto e iniciou estudos de violoncelo aos 12 anos. Cursou graduação em música (canto) na Universidade Federal de Minas Gerais, e depois na Faculdade de Música Carlos Gomes. Fez pós-graduação em canto na Royal Academy of Music, em Londres. Dentre suas inúmeras apresentações destacam-se "Porgy & Bess", "Cosi fan Tutti", "Il Trovatore", "Amahl and the Night Visitors", "Carmen", "ZAP - O Resumo da Ópera", "Condor", "Manon", "Aída", "Don Giovanni", "Le Nozze di Figaro" e "Il Guarany". Em 1996 recebeu o Prêmio Carlos Gomes.

 

 

 

 

 

 

 

 

Márcio Páscoa (direção musical)

Mestre em Música pelo Instituto de Artes da Unesp, onde também se  graduou, desenvolveu tese de doutorado sobre a ópera na Amazônia durante o século XIX na Universidade de Coimbra, Portugal. Atuou no ensino de graduação e pós-graduação na Universidade Federal do Amazonas e na Universidade do Estado do Amazonas, onde atualmente desenvolve projetos de formação e interpretação musical segundo uma abordagem historicamente informada. Nesse sentido, já se apresentou e dirigiu em diversas oportunidades, incluindo o IV Festival Amazonas de Ópera (2000). É autor de livros e vários artigos sobre a música e o teatro no norte brasileiro durante o século XIX.

 

 

 

 

 

 

 

Vanildo Monteiro (Regente Preparador do Coro)

Natural de Belém, é professor de Canto e Percussão da Escola de Música da UFPA, diretor musical do grupo Percussão Brasil, integrante da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz e da Amazônia Jazz Band, regente do Coral do Banco do Brasil, do Coral da Assembléia Paraense, do Coral do CCBEU e do Coral Marina Monarcha. Pesquisador, autor de várias palestras sobre música, promoveu e dirigiu concertos líricos, tendo  preparado o Coro do Festival de Ópera do Theatro da Paz 2002, nas montagens das óperas "Macbeth", de Verdi,  e "A Viúva Alegre", de Lehár.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Maria Adade

Começou a estudar piano em Belém. Posteriormente, transferiu-se para São Paulo, onde se graduou no Conservatório Musical José Maurício, dirigido pelas professoras Raquel e Gioconda Peluzo. Bacharelada em música pela Faculdade Paulista de Arte (Faparte), esteve em diversos cursos promovidos pelo Conservatório Dramático-Musical, Conservatório Souza Lima e outros. Marcou presença em vários concursos de piano, obtendo primeiro lugar do concurso "Assis Chateaubriand" realizado no MASP em São Paulo. Como recitalista, apresentou-se em São Paulo, no auditório do Centro Acadêmico do Instituto Aeroespacial, no Consulado Peruano, SESI, Colégio Sion etc. Atualmente desenvolve função camerística no Conservatório Carlos Gomes. Participou de diversos eventos musicais, como o Festival de Música Brasileira, Recital de Música Sacra, Recital de Oboé e Piano,  Concurso de Canto Lírico "Irmãos Nobre",  Concurso Internacional de Canto "Bidu Sayão",  óperas "Macbeth" e "A Viúva Alegre" no Festival de Ópera do Theatro da Paz 2002, além de ser  solista da Orquestra Sinfônica doTheatro da Paz na abertura do XV Festival Internacional de Música do Pará.

 

 

 

 

Esta é a ficha técnica de "Bug Jargal"

Bug Jargal

Música de José Cândido da Gama Malcher (1853-1921)

Libreto de Vicenzo Valle

16 de agosto de 2003 - Theatro da Paz

Direção Musical: Márcio Páscoa

Regente Preparador do Coro: Vanildo Monteiro

Pianista: Ana Maria Adade

Coral Marina Monarcha

Elenco

Bug Jargal -  Eduardo Itaborahy, tenor

Leopoldo d´Averney - Daniel Lee, barítono

Antônio d´Averney - Stephen Bronk, baixo

Maria - Dione Colares, soprano

Biassú - José Gallisa, baixo

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