Infância abandonada

Correio Braziliense

Brasília, sexta-feira,

11 de janeiro de 2002

(Visão do Correio)

Infância abandonada

Em dois trabalhos, o Correio Braziliense mostrou uma triste face do Brasil. O caderno especial ''Os órfãos do Brasil'', publicado na quarta, trouxe reportagem sobre os orfanatos. Neles vivem 200 mil crianças, a maioria de pais vivos. São meninas e meninos espancados dentro de casa ou abandonados pela própria família. Crescem em instituições quase sempre despreparadas para ampará-los.

O Tema do Dia de ontem, ''Infância abandonada'', denuncia o descaso governamental com os conselhos tutelares. Criado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o órgão tem por função zelar pelo cumprimento dos direitos de infantes e jovens. Mas, sem recursos, vê-se impossibilitado de cumprir o objetivo.

No Distrito Federal, os conselhos convivem com a penúria. Faltam salas de trabalho, meios de transporte, quadros qualificados e, sobretudo, conselheiros. Resultado: acumulam-se as denúncias não atendidas. Só em 2001, os oito conselhos registraram 11.832 casos. Entre eles, maus-tratos, espancamento, abuso sexual, negligência, abandono e violência psicológica. Do total, pelo menos 30% ficaram sem resposta.

Apesar da situação crítica, o GDF reduziu em 70% a verba destinada ao órgão em 2002. O drástico corte pode inviabilizar a atuação dos conselhos. É alarmante. A conseqüência do descaso não exige imaginação fértil. Aumentará o número de crianças, adolescentes e jovens vítimas de violência dentro de casa. Sem ação preventiva eficaz, muitos engrossarão o contingente de meninos de rua ou órfãos de pais vivos que superlotam as instituições públicas ou privadas.

O quadro é extremamente delicado. O drama da infância abandonada tem raízes profundas. Envolve a crise de valores que afeta as famílias. E alia-se à crise social e econômica por que passa o país. A solução não pode ser deixada só em mãos do governo. O Estado, claro, tem que fazer a sua parte. A destinação e fiscalização da aplicação adequada de recursos é uma delas. Campanhas educativas, outra.

Igrejas, escolas, clubes de serviços, organizações não-governamentais têm também papel importante no processo. É preciso fazer um trabalho de estímulo à adoção. Muitas famílias só querem levar para casa crianças sem memória dos maus-tratos da infância. Para elas, as que têm 4 ou 5 anos já são velhas. É justo o temor.

Há que buscar mecanismos engenhosos que venham ao encontro da apreensão e do altruísmo das pessoas. O governo pode garantir, por exemplo, tratamento psicológico gratuito e de qualidade a pais e filhos quando se fizer necessário. Ou permitir desconto no Imposto de Renda superior ao concedido aos filhos biológicos.

Além de ser atitude caridosa, a adoção implicará redução de custos bancados pela sociedade. Orfanatos, equipamentos de segurança, sistema prisional oneram pesadamente os cofres públicos. E raramente cumprem o papel de reeducar e ressocializar o indivíduo.

© Copyright CorreioWeb Fale com a gente Publicidade