Dengue

Correio Braziliense

Brasília, sexta-feira,

25 de janeiro de 2002

Dengue

(Visão do Correio - Opinião)

A dengue é considerada hoje o maior problema de saúde pública dos países tropicais. As condições climáticas lhe são favoráveis. O Aedes aegypti, mosquito transmissor da doença, prolifera em ambientes com temperatura e umidade elevadas. Daí por que no verão, período de calor forte e chuvas abundantes, ocorre o maior número de casos.

O Brasil oferece terreno fértil para a proliferação do inseto. Mais de 20% da população das grandes e médias cidades vivem em condições precárias de saneamento básico. Sem abastecimento regular de água e coleta constante de lixo, formam-se os criadouros ideais do Aedes aegypti. Os moradores das áreas de risco precisam manter água em reservatórios, e o lixo moderno, descartável por excelência, forma depósitos artificiais que atraem o mosquito.

A violência urbana é outro aliado da enfermidade. Os técnicos não conseguem entrar nas casas para inspecioná-las. Amedrontada, a população teme estar diante de um bandido disfarçado que se diz funcionário da vigilância sanitária. Não lhe abre a porta.

Mais. O país recebe grande fluxo de turistas. O ser humano é a fonte da transmissão do mal. É ele quem contamina o mosquito. Ora, não há possibilidade de inspecionar portos, aeroportos, ferroviárias, rodoviárias e estradas para detectar possíveis infectados. Ainda que houvesse, a dengue, em muitos casos, é assintomática ou confunde-se com gripe ou resfriado.

Erradicar a dengue no curto prazo, pois, é impossível. Mas o poder público pode e deve tomar medidas capazes de mantê-lo sob controle e, sobretudo, de salvar vidas. Campanhas educativas mudam hábitos da população. Os brasileiros têm o costume de manter, nas dependências domésticas, vasos de plantas com pratinhos de água. Conscientes do perigo, poderão livrar-se do risco potencial.

Certas ações simples, porém indispensáveis, não podem ser negligenciadas. É o caso de atacar os possíveis focos do Aedes aegypti. A vigilância sanitária deve fiscalizar cemitérios, borracharias, depósitos de ferro velho e providenciar a limpeza de terrenos baldios. São ações preventivas eficazes e urgentes.

Mas, enquanto perdurarem as situações de precariedade em saneamento básico, haverá infectados. O Brasil deu um passo adiante para conviver com o mal. Especializou profissionais da área de saúde a fim de tratar as formas graves da infecção e reduzir-lhe a letalidade a quase zero. Vale o exemplo. Manaus registrou 58 ocorrências de dengue hemorrágica. O único óbito deveu-se ao fato de o enfermo não ter procurado o hospital de referência.

A escassez de recursos impede que todos os hospitais tenham unidades especializadas em dengue. Mas impõe-se que todas as cidades tenham pelo menos um centro de atendimento aos casos graves. Com socorro adequado e tempestivo, é possível evitar mortes. Nenhum governo pode ignorar esse avanço.

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