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O gigante Victor Correio Braziliense Brasília, quinta-feira, 07 de março de 2002 O gigante Victor O bicentenário do escritor francês Victor Hugo é comemorado intensamente na França e reforça a imagem de herói literário que ele sempre teve Da Redação Cena da versão brasileira do musical Les Misérables, que está em cartaz em São Paulo até o fim do mês. Victor Hugo atingiu uma estatura tão grande que não é nenhuma surpresa que a França inteira se volte para celebrar a obra e a vida desse escritor que nasceu há 200 anos (em 1802, portanto). Nada como uma data redonda para atiçar os ânimos. E assim, voilà, os franceses celebram o bicentenário do nascimento do autor de O Corcunda de Notre Dame e Os Miseráveis. Victor Hugo foi tão grande que o cineasta Jean Cocteau cunhou um paradoxo: ''Victor Hugo era um louco que se julgava Victor Hugo''. Senão, confira: quando morreu, em 1885, cerca de dois milhões de pessoas acompanharam o corpo até o Panthéon, gente em número maior do que a população habitual de Paris. Nos obituários, disseram que ele havia publicado somente dois terços da obra em vida, mas isso não estava certo. Era mais. Dezessete anos depois, já se incluíam 17 romances, 18 volumes de poesia, 21 peças teatrais, uma boa quantia de pinturas e desenhos, mais três milhões de palavras sobre história, crítica, relatos de viagem e filosofia. Segundo o biógrafo Graham Robb, Victor Hugo foi modesto ao desejar que suas obras completas formassem um livro que resumiria o século. Por que havia outros Victor Hugos: o profeta do surrealismo, de duas guerras mundiais e da Comunidade Européia (o primeiro-ministro francês Lionel Jospin destacou exatamente isso no discurso oficial que inaugurou as comemorações do bicentenário), o santo de uma religião vietnamita, o monarca de uma República francesa. Na França, ele dá nome a um sem-número de bulevares, e bustos, baixos-relevos e estátuas se espalham fartamente. O primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, foi a Besançon - cidade natal do escritor - fazer a inauguração oficial das comemorações. Em Paris, serão feitas 102 representações de peças, recitais, exposições ou colóquios, e toda a obra será reeditada (15 volumes, mais dois de correspondências), junto com o lançamento de um bom número de biografias e ensaios. O primeiro volume de 1,5 mil páginas da biografia de Jean Marc Hovasse também será lançado - o outro volume chega até o final do ano. O pai de Victor Hugo foi um militar napoleônico - o que para sempre marcou a trajetória do escritor. Primeiro, Hugo amou Napoleão como herói da França. Mais tarde, foi crítico ferrenho e, em seguida, voltou atrás. No fim da vida, virou republicano. Hugo viveu quase 20 anos em exílio e teve a estátua em Paris destruída em 1941 pelo exército alemão de ocupação, graças a uma lei promulgada pelo governo colaboracionista de Vichy. Apaixonado e monarquista, Victor Hugo começou como poeta e logo se arriscou na dramaturgia e nos romances. Exílio Aos 27 anos, queria publicar as obras completas em dez volumes, e em 1848 foi eleito deputado conservador. Mas o humanismo, o internacionalismo, o combate à pena de morte o converteram à esquerda e ao exílio (entre 1851 e 1870) para evitar a restauração imperial de Napoleão III. Escritor profícuo - falam-se em um total de 17,5 mil páginas - tornou-se símbolo da rebelião e da luta pela emancipação social. ''A suprema felicidade da vida é a convicção de que somos amados'', diz a personagem Fantine no quarto capítulo de Os Miseráveis. No mesmo capítulo, Saint Denis afirma: ''Aqueles que não querem o futuro deveriam reconsiderar... Só existe um jeito de recusar o amanhã, é morrer''. No capítulo anterior, ele havia dito: ''Existe um momento em que o protesto não é suficiente; depois da filosofia, deve haver ação; a mão forte termina o que a idéia esboçou''. Jean Valjean, o protagonista do livro, também afirma algo a respeito da filosofia: ''A filosofia é o microscópio do pensamento''. Começou a escrever cedo e os primeiros romances foram marcados pelo romantismo de Sir Walter Scott. Mesmo a vida pessoal tinha seus toques de exagero românticos: no dia do casamento com Adèle Foucher, Victor Hugo viu o irmão enlouquecer (em parte, por ter perdido a disputa pelo amor de Adèle). Nas palavras de apresentação da peça Cromwell (1827), Hugo escreveu um manifesto em defesa de um novo drama, o que deu início ao debate entre o classicismo francês e o romantismo. Embora não fosse um rebelde nem estivesse diretamente envolvido com a campanha contra os burgueses, ele influenciou profundamente o movimento romântico na França. Quando publicou Notre Dame de Paris, em 1831, Victor Hugo conheceu o sucesso imediato. O livro tem a história da cigana Esmeralda, por quem se apaixona o corcunda sineiro, Quasímodo, da catedral de Notre Dame. Com o golpe de estado de Luis Napoleão (Napoleão III) em 1851, Victor Hugo imaginou que sua vida estivesse em perigo e fugiu para Bruxelas e depois para as ilhas do Canal inglês, Jersey e Guernsey (embora dependências da Coroa britânica, não integram o Reino Unido, e ficam próximas à França). O exílio rendeu bons trabalhos literários. Nessa linha de defesa dos injustiçados sociais, publicou Os Miseráveis em 1862, um épico a respeito do assunto. Ele mandava ao editor pilhas e pilhas de texto revisado, parecia que aquilo não acabaria nunca. A partir de uma perseguição implacável e injusta a Valjean, Victor Hugo aproveita para traçar um amplo panorama do século e das relações sociais. Hetzel, o editor, havia oferecido ''apenas'' 15 mil francos (em dinheiro atual, pagaria o salário anual de 60 funcionários públicos), mas Hugo fez questão de manter o preço que havia proposto: 300 mil francos durante oito anos, incluindo direitos de tradução. Sabia a obra que tinha nas mãos - e o que o público queria. A campanha publicitária em torno do livro foi tão intensa que envolvia não só Paris, mas Londres, Bruxelas, Leipzig, Roterdã, Madri, Milão, Turim, Nápoles, Varsóvia, São Petersburgo e Rio de Janeiro. Hugo alimentava desejos antes mesmo da publicação, ao dar definições como ''o drama social e histórico do século 19'' e também afirmou o seguinte: ''Dante criou um inferno com a poesia; eu tentei fazer um com a realidade''. Em 22 de maio de 1885, morreu em Paris. A quantidade de comemorações 200 anos depois de seu nascimento é prova de que continua a mover paixões, como a que movimentou a própria vida de Victor Hugo - tenaz e fulgurante. NO BRASIL Não é fácil acompanhar a obra de Victor Hugo por aqui. Ou são edições reduzidas, a pretexto de formar público infantil, ou são difíceis de encontrar nas prateleiras das livrarias. Os originais de Os Miseráveis, por exemplo, têm 1,7 mil páginas. As ''versões'' brasileiras são da Ediouro (157 páginas) e da Melhoramentos (38 páginas). Uma lástima. Integralmente em português, para comprar, só de Portugal, pelas edições Europa-América, em cinco volumes (média de 308 páginas). A espera no Brasil vai durar até agosto, quando a editora Cosac & Naify lançará edição integral. Na verdade, uma republicação da tradução que existe desde os anos 1950 (em sete volumes), em dois - alentados - volumes. Uma revisão crítica está a cargo de Frederico Ozanan Pessoa de Barros. A biografia escrita por Graham Robb recebeu tradução (de Alda Porto) no ano passado. Victor Hugo - Uma Biografia foi lançado pela Record e mostra praticamente todos os ângulos da vida do escritor. Em abril do ano passado, estreou em São Paulo o musical Les Misérables, visto por 42 milhões de pessoas em sete diferentes cidades do mundo. Dos 37 profissionais do elenco, 11 foram selecionados em Brasília. ALGUMAS OBRAS Do Grotesco e do Sublime Perspectiva - R$ 12 William Shakespeare Campanário - R$ 28 Conversando com a Eternidade Madras - R$ 28 Corcunda de Notre Dame Companhia das Letras - R$ 26,50 Os Miseráveis Europa-América - R$ 86,32 O Último Dia de um Condenado Europa-América - R$ 16,02 Nossa Senhora de Paris (1º volume) Europa-América - R$ 15,95 Nossa Senhora de Paris (2º volume) Europa-América - R$ 16,02 © Copyright CorreioWeb Fale com a gente Publicidade. |